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Publicação semestral da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC)

Vol. 13 nº 2 - Jul. / Dez.  de 2017

DOI: 10.5935/1808-5687.20170017

RELATOS DE PESQUISAS

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Páginas 122 a 130

Programa para a promoção da empatia em sala de aula

A program to promote empathy in classroom

Autores: Danielle da Cunha Motta1; Aline Passeri Dias2; Ana Lúcia Novais Carvalho3; Ricardo Vierialves de Castro4; Alex Christian Manhães5; Lidiane Gonçalves Gama Silva6; Karina Nascimento Valladares dos Santos7

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Palavras-Chave: Empatia; Treinamento; Professor.

Keywords: Empathy; Training; Teacher.

Resumo:
A violência entre jovens evidencia a necessidade do desenvolvimento de projetos que visem à inibição de comportamentos violentos e à promoção de comportamentos antagônicos, como a empatia. O professor constitui-se como um importante elemento para a promoção de comportamento empático em seus alunos, servindo de modelo na expressão desta habilidade. A proposta do projeto apresentado neste artigo foi desenvolver um programa para desenvolvimento do comportamento empático em professores. Foi realizado um estudo quase experimental, com avaliação antes e depois. Oito professores participaram de todos os procedimentos do estudo e responderam os seguintes instrumentos: Roteiro de entrevista semiestruturada, Inventário de Empatia, Teste de Empatia em Cenas e Avaliação Livre do treinamento. O Programa de Treinamento da Empatia foi composto por 11 sessões, com duração de três horas. Como resultado, nas avaliações pós-treinamento, os participantes apresentaram média de desempenho maior em todas as medidas de empatia, sendo estas diferenças estatisticamente significativas. Os benefícios encontrados neste estudo corroboram os dados da literatura que apontam para a empatia como uma habilidade plástica, com importante efeito de aprendizagem. A eficácia do programa mostra que o treinamento proposto pode ser útil como um recurso, na formação de professores, para uma escola mais empática e menos violenta.

Abstract:
Violence among young people highlights the need to develop projects for the inhibition of violent behavior and the promotion of opposite behaviors such as empathy. The teacher constitutes an important element for the promotion of empathic behavior by modeling the expression of this ability. The project proposal presented in this article was to create a program for the development of empathic behavior in teachers. A quasi-experimental study was carried out, with before and after evaluations. Eight teachers from public and private educational institutions participated in all study procedures and completed the following instruments: Semi-structured interview script, Inventory of Empathy, Test of Empathy in Scenes and Free Evaluation of the training. The Empathy Training Program was composed of 11 sessions, lasting three hours. As a result, in the post-training evaluations, the participants had a higher average performance in all measures of empathy, with these differences being statistically significant. The benefits found in this study are consistent with the literature data that points to empathy as a skill with lasting learning effects. The effectiveness of the program, indicated by the results, shows that the proposed training can be useful as a resource in teacher training for a more empathic and less violent school.

INTRODUÇÃO

Um dos problemas que mais preocupam, na atualidade, parece intimamente relacionado a uma crise generalizada de compaixão, que se revela, por exemplo, na violência entre jovens, uma inquietação mundial, mas particularmente grave para o Brasil.

Segundo dados do recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2017) - A Familiar Face: Violence in the lives of children and adolescentes - divulgado em 1º de novembro de 2017, o Brasil ocupa a sétima posição em homicídios de jovens não relacionados a conflitos armados, com 59 mortes para cada 100 mil habitantes. Entre os latino-americanos e caribenhos, subimos para a quinta posição, atrás apenas da Venezuela (97,7), Colômbia (70,7), El Salvador (65,5) e Honduras (64,9), nesta ordem de classificação, segundo as estatísticas. No Brasil, a violência entre jovens tem sido bastante documentada, através dos trabalhos de Waiselfisz (2014).

A publicação da UNICEF sugere algumas medidas e recomendações consideradas urgentes para proteger o que consideram uma geração em risco, entre elas: investir em planos nacionais, a fim de reduzir a violência contra crianças e adolescentes, a partir de ações preventivas coordenadas que envolvam iniciativas multissetoriais, incluindo o governo e a sociedade civil - escolas, comunidades e famílias. Sugere-se, ainda, que estas iniciativas envolvam a participação em treinamentos de habilidades de vida e solução de conflitos que têm se mostrado promissores para ajudar as crianças a resolverem problemas de maneira não violenta, lidando positivamente com suas emoções, empatizando com os outros e administrando de maneira saudável situações abusivas.

A agressividade entre crianças e adolescentes tem justificado a realização de muitos estudos sobre empatia, dada a correlação inversa entre estas duas variáveis (Pavarino, Del Prette & Dell Prette, 2005; Blair, Colledge, Murray & Mitchell, 2001; Blair, 1997).

Além de funcionar como um fator de proteção contra comportamentos delinquentes e violentos, a empatia também contribui para o desenvolvimento intelectual como um todo e para a melhoria da qualidade dos relacionamentos interpessoais, em geral. Os dados da literatura revisada indicam que a sensibilidade empática da criança aos sentimentos dos outros ocupa um papel central no seu desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Em síntese, dentre os possíveis efeitos mediados por ela, destacam-se: regulação da agressividade, compaixão, benevolência e condutas afins; redução de preconceitos; ajustamento social; competência social e sucesso acadêmico e profissional. Por estes motivos, ela tem sido considerada um elemento crítico para o desenvolvimento infantil saudável (Blair; 1997; Beyers & Loeber, 2003; Cotton, s.d; Crick, 1996; Overgaauw S, Rieffe C, Broekhof E, Crone EA, Güroğlu B.Warden & Mackinnon, 2003; Strayer, 1992).

A importância da escola no desenvolvimento da empatia


Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro...(Rubem Alves)


Em entrevista à Agência Brasil, o oficial de programas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Mario Volpi, defendeu que a superação do quadro de violência entre os jovens deve incluir a implantação da educação de tempo integral no país, em suas palavras, baseada em valores, aprendizagens e conteúdos que fazem sentido para a vida. Uma solução que, segundo ele, tem dado certo em outros países, como o Chile e a Argentina (Andrade & Richard, 2007). É exatamente neste sentido abrangente de educação, integral em relação ao tempo e em relação aos conteúdos, que se insere este projeto.

Ao lado dos pais, a escola – na figura do (a) professor (a) –, onde as crianças tendem a passar cada vez mais tempo, desempenha um papel fundamental na educação infantil, incluindo a educação dos sentimentos e das virtudes, para a formação do caráter e da cidadania. Esta é uma posição assumida por muitos autores, atualmente, na área da Educação. Entre eles, Trianes, Muñoz e Jiménez (1997) propõem que a escola deve promover deliberadamente a realização de programas voltados para o desenvolvimento social e afetivo dos alunos e dos professores, opinião compartilhada por Tognetta (2003). Segundo ela, todas as instituições que educam precisam assumir a responsabilidade de tratar da solidariedade e de todas as outras virtudes importantes e desejáveis para a harmonia da sociedade.

Pais e professores podem ajudar as crianças a desenvolver empatia, servindo como modelo para este tipo de comportamento, oferecendo apoio e demonstrando interesse e atenção pelos assuntos das crianças, mostrando consciência das emoções e falando sobre isso com elas (Motta, Falcone, Clark & Manhães, 2006).

Algumas experiências já relatadas na literatura mostram que a promoção da empatia na educação infanto-juvenil traz resultados positivos. A avaliação de um programa de promoção da empatia em sala de aula realizada por Rodrigues e Silva (2012) mostrou que houve “uma ampliação da linguagem infantil referente aos termos emocionais e uma maior conscientização da importância de estar atento aos sentimentos dos outros e às possíveis formas de expressar a compreensão empática” (p. 71). Outras pesquisas e programas de intervenção realizados em escolas (Pereira, Soares, Alves, Cruz & Fernandez, 2014; Borges & Marturano, 2009) mostraram resultados similares.

Ajudando crianças a descobrir a empatia

Assumindo a empatia como uma habilidade que pode ser desenvolvida a partir de treinamento específico, Falcone (1999) recomenda a inclusão de programas para treiná-la nas escolas, como um recurso preventivo importante para o desenvolvimento moral e interacional.

Após uma revisão bibliográfica, Cotton (s.d.) oferece algumas sugestões de procedimentos para serem incluídos em programas de treinamento da empatia para crianças e adolescentes: exercitar a percepção interpessoal e a resposta empática, criando situações em que os estudantes aprendam a reconhecer os próprios estados emocionais e os dos outros, além de responder empaticamente; dirigir a atenção para os próprios sentimentos, antes de adotar a perspectiva do outro; promover a percepção de semelhança entre a criança e as outras pessoas; investir em jogos de papéis, em que a criança assume o lugar de outra pessoa, imaginando-se e agindo como ela; exercitar sistematicamente a perspectiva dos outros; expor as crianças a estímulos emocionais, como o sofrimento e a angústia dos outros, encorajando-as a pensar sobre isso; apresentar empatia como uma qualidade positiva que faz parte da natureza humana; modelar o comportamento empático durante o treinamento; incentivar as crianças a adotarem comportamento de solidariedade, mostrando exemplos famosos de empatia, como Martin Luther King e Madre Tereza.

Dessa forma, considerando: 1) a importância da empatia para o desenvolvimento humano, 2) que mais frequentemente do que se acreditava, a empatia pode ser disparada voluntariamente, sendo uma habilidade extremamente plástica e que, portanto, pode ser treinada (Decety & Jackson, 2004; Goleman, 2007); 3) que os grupos sociais naturais onde a criança se insere são os melhores contextos para intervenções preventivas a fim de promover competências sociais (Matos, 1997; Gopnik, 2001); 4) a importância da escola e dos professores na educação integral das crianças, incluindo a educação dos sentimentos e do caráter; 5) que um professor treinado torna-se um multiplicador potencial da habilidade em questão; propusemos a realização deste estudo experimental para testar a eficácia de um programa de desenvolvimento da empatia de crianças em sala de aula conduzido por professores.

Objetivo geral

O objetivo geral desta pesquisa foi investigar os efeitos de um programa para o desenvolvimento da empatia em professores do Ensino Fundamental, de instituições públicas e particulares.

MÉTODO

Foi realizado um estudo quase experimental, em que os professores foram convidados a participarem de um Programa para o desenvolvimento da empatia composto por 11 encontros, com duração de três horas, com periodicidade semanal. Os professores foram avaliados antes e depois da realização do programa. Os encontros foram conduzidos pelas autoras do artigo no auditório do Laboratório de Estudos Contemporâneos da UERJ. O recrutamento foi realizado através de visitas pessoais e de chamadas eletrônicas a diversas escolas das redes pública e particular do município do Rio de Janeiro. O projeto foi aprovado pelo CEP, sob o parecer nº 336.552.

Participantes

Inscreveram-se 12 professores, de cinco escolas diferentes. Dentre elas, uma particular e quatro públicas. Dos 12 professores inscritos, apenas oito concluíram o treinamento. Destes, um era coordenador de escola, sem sala de aula, e outro era professor auxiliar.

Instrumentos

Para a participação no Programa os professores preencheram os seguintes instrumentos:

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

Roteiro de entrevista semiestruturada sobre o comportamento empático do professor (Figura 1). Foram apresentadas aos professores sete situações-problema, envolvendo alunos na escola. Pediu-se aos professores para descrever o que fariam, ou diriam em cada situação. As situações foram desenvolvidas a partir de relatos de professores sobre as dificuldades encontradas em sala de aula.


Figura 1. Situações problema apresentadas aos professores.


Figura 2. Pontuação do Componente Cognitivo do TEC


Figura 3. Pontuação do Componente Afetivo do TEC



Inventário de Empatia/IE (Falcone et al., 2008): escala com 40 itens, baseados nos componentes cognitivos, afetivos e comportamentais da empatia, com afirmativas do tipo Likert, criada a partir da identificação de 16 situações de interação social, fornecidas pela literatura.

Teste de Empatia em Cenas (TEC): Esta medida foi adaptada a partir do Young Children’s Empathy Measure, um instrumento desenvolvido por Poresky (1990), para avaliar a empatia em crianças. O original consiste em quatro vinhetas apresentadas verbalmente para se avaliar a habilidade da criança para identificar tristeza, raiva, alegria e medo em pequenas histórias. A forma adaptada consiste em cinco cenas de curta duração, evocando sentimento de raiva, constrangimento, tristeza, alegria e medo, retiradas de filmes comuns de exibição em grande circuito, como: O caçador de Pipas; Casamento Grego; A lista de Schindler; Em busca da felicidade e A vida é bela. A cada cena, os participantes responderam às seguintes questões: a) Como você acha que o personagem se sentiu nesta história? (Tomada de Perspectiva Cognitiva); b) Por que você acha que ele se sentiu assim?; c) E você, como você se sentiu vendo isso? (Tomada de Perspectiva Afetiva); d) Por que você se sentiu assim? Neste tipo de avaliação considera-se, além da Tomada de Perspectiva Cognitiva (eliciada pela pergunta: Como você acha que o personagem se sentiu nesta história?) e da Tomada de Perspectiva Afetiva (eliciada pela pergunta: E você, como você se sentiu vendo isso?), a precisão na compreensão dos sentimentos do personagem (eliciada pela pergunta: Por que você acha que ele se sentiu assim?) e dos seus próprios sentimentos (eliciada pela pergunta: Por que você se sentiu assim?).

O critério de pontuação segue os quadros abaixo e se baseia na combinação do afeto e na capacidade para comunicar os pensamentos e sentimentos:

A partir da pontuação acima, obtém-se um escore global (máximo = 48) e considera-se maior o nível de empatia quanto maior a pontuação.

Avaliações dos participantes: Ao final do treinamento, foi pedido aos professores que fizessem avaliações a respeito do projeto, com críticas e sugestões. As anotações eram livres, feitas à mão pelos participantes e posteriormente digitalizadas pela equipe do projeto.

O Programa para o desenvolvimento da empatia

As sessões foram planejadas em três partes: (1) “aquecimento” e verificação de tarefas de casa; (2) exposição e discussão do tema a ser trabalhado naquele dia, seguido da atividade principal; (3) avaliação da sessão e seleção da tarefa de casa. Basicamente, as técnicas empregadas incluíram: 1) explicações sobre o comportamento empático; 2) imaginação de cenas envolvendo situações de interação; 3) dramatização ou desempenho de papéis; 4) exercício das habilidades trabalhadas nas sessões, no dia a dia; 5) dinâmicas de grupo; 6) apresentação e discussão de filmes; 7) discussão e interpretação de contos e histórias.

Sobre o conteúdo programático, a sua elaboração baseou-se narevisão da literatura sobre empatia, procurando abranger os três componentes (cognitivo, afetivo e comportamental), recorrendo às práticas que teoricamente favorecem a empatia, e seguindo os passos naturais no seu desenvolvimento: reconhecimento e nomeação das emoções; autoconsciência e identificação das próprias emoções; tomada de perspectiva e identificação das emoções das outras pessoas; adoção de comportamento pró-social. Os 11 encontros foram agrupados em três módulos: 1) Ampliando o repertório e experimentando as emoções (Sobre as emoções e os sentimentos, como lidamos com eles; Empatia na visão evolucionária; Inteligência social e empatia - sessões de um a quatro); 2) O que é empatia? (Habilidades sociais, assertividade e empatia; Importância da empatia no contexto doméstico e na escola - sessões de cinco a sete); 3) Promovendo o comportamento empático (O desenvolvimento da empatia na infância; Práticas educativas e empatia; Como promover a empatia na escola - sessões de oito a onze). Privilegiaram-se recursos audiovisuais normalmente utilizados na educação infantil, como textos infantis com temáticas relacionadas à empatia, e filmes infantis que conduzem à tomada de perspectiva, como Brother Bear (Aaron & Walker, 2003), traduzido como Irmão Urso, além de atividades próprias para crianças em idade escolar, como corte e colagem, desenho e pintura e brincadeiras sobre identificação e representação de emoções.

Resumidamente, abordou-se empatia de maneira prática e expositiva. A cada encontro, os professores recebiam tarefas de casa com o objetivo de promover e monitorar o próprio comportamento empático.

Análise de dados

Metodologias quantitativas e qualitativas foram utilizadas para a análise dos dados.

Análise quantitativa

Juízes cegos quanto aos participantes e à etapa da pesquisa analisaram e pontuaram a entrevista semiestruturada sobre o comportamento empático do professor e a Empatia em Cenas. O inventário de empatia foi pontuado conforme instruções de correção do instrumento, já descritas.

Inicialmente, as distribuições das pontuações das variáveis utilizadas foram testadas através do teste de Kolmogorov-Smirnov para uma amostra, a fim de verificar a normalidade das mesmas. O nível de significância adotado para este teste estatístico, bem como para os demais, foi de 5%. O teste t de Student foi utilizado para as comparações estatísticas do desempenho dos professores antes e depois do treinamento.

Análise qualitativa

Para a análise dos dados qualitativos, constituídos pelas observações dos professores acerca do treinamento, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo temático-categorial (Bardin, 2000). Os relatos dos professores foram de livre formato e a única instrução oferecida foi a solicitação de depoimentos pessoais sobre a participação no treinamento.

A análise de conteúdo consiste em um processo através do qual o material empírico é transformado sistematicamente e agregado em unidades, as quais permitem uma descrição exata das características pertinentes ao conteúdo (Oliveira, 2008).

Na análise de conteúdo, o texto (as observações dos professores, neste caso) é repartido em unidades de registros (UR) e estas dão origem aos temas, que por sua vez são agregados e formam as categorias. Estas procuram sintetizar as unidades de registro e agregar os significados existentes no texto em subconjuntos.

Por se tratar de um material de menor extensão, as unidades de registros foram agregadas diretamente em categorias, não havendo necessidade de passar pela etapa de transformação de URs em temas.


RESULTADOS

A análise dos resultados obtidos com os professores nas avaliações pré e pós-teste mostra que a média global aumentou significativamente de uma avaliação para a seguinte, em cada um dos instrumentos utilizados para a avaliação da empatia.


Figura 4. Efeito do Treinamento sobre o desempenho dos professores nas respostas à entrevista semi-estruturada sobre o comportamento empático do professor. Valores apresentados na forma de médias e erro padrão da média. ** p > 0.01.


Figura 5. Efeito do Treinamento sobre o desempenho dos professores nas respostas ao Inventário de Empatia/IE. Valores apresentados na forma de médias e erro padrão da média. ** p > 0.01.


Figura 6. Efeito do Treinamento sobre as respostas dos professores ao Teste de Empatia em Cenas (TEC). Valores apresentados na forma de médias e erro padrão da média. ** p > 0.01.



Sobre as anotações livres realizadas pelos professores, a análise resultou num corpus constituído por 100 unidades de registro, que foram agrupadas em onze categorias, conforme tabela abaixo (Tabela 1).




De uma maneira geral, podem-se resumir as observações dos professores em duas constatações: a percepção de que o treinamento da empatia era necessário (seja para lidar com problemas relacionados à indisciplina em sala de aula, seja porque, se não for bem cuidada, a sensibilidade se perde nas dificuldades do dia a dia) e a percepção de que o treinamento rendeu resultados positivos, como ilustram as falas abaixo:

Por exemplo:


A falta de afeto e empatia nas relações escolares era algo que já vinha me incomodando e despertando uma vontade de mudar a realidade encontrada.(Fala de professora de Escola Municipal - Categoria “Falta empatia/afeto no dia a dia).

Aprendi muito também sobre sensações e questionamentos que fazia sobre meus alunos e sobre mim mesma (Fala de professor de Escola Particular – Categoria “Aprendizado do educador”).

...ao longo do desenvolver das atividades, os alunos foram me mostrando que me preocupar com eles, com seus sentimentos, suas opiniões, fazia a diferença. (Fala de professor de Escola Particular – Categoria “Mudanças na relação aluno-professor).

...aumentou a confiança deles em mim.(Fala de professora de Escola Municipal - Categoria “Mudanças na relação aluno-professor).

...foi possível observar melhoras significativas no comportamento de alguns alunos (Fala de professora de Escola Municipal – Categoria “Mudanças que o curso trouxe para os alunos”).



DISCUSSÃO

A partir da análise dos resultados dos professores nas três medidas de empatia e, ainda, na avaliação qualitativa, pode-se confirmar a hipótese experimental: considerando a amostra global e o procedimento como um todo, verifica-se uma melhora significativa da empatia dos participantes entre o início e o final da intervenção. Considera-se, portanto, atingido o objetivo de desenvolver um programa eficaz para o desenvolvimento da empatia do professor, no contexto escolar.

Empatia é uma habilidade de interação, seu treinamento não se encerra no laboratório, mas se estende para os demais contextos vivenciais (o que é estimulado, inicialmente, com as tarefas de casa), onde o repertório assimilado é utilizado e, provavelmente, reforçado nas relações pessoais, promovendo a sua generalização e contínuo aperfeiçoamento, mesmo após a intervenção.

Os efeitos positivos deste Programa são coerentes com fundamentos teóricos e outros estudos que apontam a empatia como uma habilidade extremamente plástica, que conta com um importante efeito de aprendizagem e pode, portanto, ser estimulada e, inclusive, treinada (Decety & Jackson, 2004; Falcone, 1999; Goleman, 2007). O sucesso do treinamento, revelado pelos resultados apresentados, mostra que programas de treinamento da empatia podem ser úteis para o aperfeiçoamento desta habilidade tão importante para o desenvolvimento humano, em qualquer etapa da vida. Recomenda-se o Programa como um recurso preventivo próprio para ser usado quando se pretende investir no desenvolvimento interacional e moral das crianças na escola.

A princípio, ninguém seria mais apropriado para conduzir alunos do que um professor. O treinamento do professor, obviamente, inclui o desenvolvimento das suas próprias habilidades empáticas. Teoricamente, quanto mais empático é um professor, melhor modelo de empatia ele é. Um professor treinado atingiria muito mais crianças, não apenas na condução de treinamentos na forma como foi apresentada aqui, mas também na estimulação intencional da empatia na rotina dos alunos. O Programa não é, senão, o aproveitamento de recursos comuns de sala de aula para promover a empatia. Da mesma forma, usando recursos próprios da educação escolar, um professor que tem a empatia como um objetivo educacional pode, voluntariamente, conduzir os alunos para este final, aproveitando as muitas oportunidades que o contexto escolar oferece para que a empatia seja exercitada.


CONCLUSÃO

A eficácia do programa, apontada pelos resultados, mostra que o treinamento proposto pode ser útil como um recurso, na formação de professores, para uma escola mais empática e menos violenta. Espera-se que este estudo possa contribuir para que se cumpram as recomendações urgentes da UNICEF, para proteger o que consideram uma geração em risco pela violência que assola as grandes cidades. Uma das propostas são ações preventivas, envolvendo escolas, comunidades e famílias, com treinamento de habilidades de vida para solução não violenta de conflitos. O programa desenvolvido apresenta estas características e mostrou resultados satisfatórios, com o uso mínimo de recursos.

Uma das limitações observadas nesta pesquisa foi a impossibilidade de verificar o impacto do aumento significativo da empatia dos professores sobre a empatia dos alunos. A proposta inicial era justamente esta, validar o programa, através do impacto sobre a empatia dos alunos, também. Greves nas escolas públicas e a dificuldade de adesão dos professores, por falta de tempo disponível para treinamento, já haviam atrasado o início da pesquisa e a dificuldade de obter o consentimento dos responsáveis em diferentes escolas acabou atrasando ainda mais. Assim, optou-se por não avaliar a empatia das crianças naquele momento.

São desdobramentos possíveis: validação do treinamento de professores, através do impacto sobre a empatia das crianças; o treinamento de pais e outros educadores; além da preparação dos professores para o treinamento dos próprios alunos.


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1. Doutora em Psicologia Social - (Psicóloga clínica. Pesquisadora do Laboratório de Estudos Contemporâneos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
2. Mestre em Psicologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. - (Professora do curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá. Pesquisadora do Laboratório de Estudos Contemporâneos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Psicóloga clínica.) - Rio de Janeiro - RJ - Brasil
3. Doutora em Biologia (Biociências nucleares) - (Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense)
4. Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - (Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenador do Laboratório de Estudos Contemporâneos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
5. Doutor em Biologia (Biociências Nucleares) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - (Professor Associado do Departamento de Ciências Fisiológicas do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (IBRAG) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
6. Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. - (Pesquisadora do Laboratório de Estudos Contemporâneos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
7. Psicóloga pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. - (Psicóloga)

Correspondência:
Aline Passeri Dias
Instituição: Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rua São Francisco Xavier, 524
Rio de Janeiro - SP
E-mail: alinepasseri@gmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBTC em 28 de Novembro de 2017. cod. 552
Artigo aceito em 14 de Abril de 2018
 
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